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Preto e branco

Por quanto tempo somos capazes de viver no lugar comum chamado simplicidade? Por quanto tempo o "não" e o "sim", crus e diretos, podem durar? A simplicidade me agrada. O olhar preto e branco, sem nuances ou degradês; é ou não é. O problema é que agrada mas não se mantém. Precisa de pouco para "talvez", "e se", "mas", "será" e companhia retornarem ao habitual vocabulário dos monólogos mentais... Talvez (olha ele aí!) uma solução seja se esforçar: para manter a simplicidade, para abandonar os "senões". Se policiar, prestar atenção aos pensamentos, reprogramar as intenções. Se funcionar eu conto, ok?

Mentir pra mim

Um coração vazio parece bater mais, muito mais que um cheio de alguém. Bate tanto e por tão nada que chega a doer... Queria tanto enganar a mim mesma! Me apaixonar platonicamente, me iludir! Mas a consciência da realidade e dos homens é tanta que não sinto mais os efeitos do suave veneno que é o engodo.

O escorpião, o sapo e o rio

Quando minha mãe quer explicar sobre a imutabilidade de certas situações ou discutir sobre o comportamento humano, ela quase sempre conta a história do sapo e o escorpião. Havia um rio, um sapo nadando e um escorpião em uma das margens. O escorpião chama o sapo e pede "por favor, sapinho, poderia me levar à outra margem do rio?" O sapo olha desconfiado e responde "você acha que eu sou doido? Você vai me picar, meu corpo vai ficar paralizado e vou afundar!" O escorpião faz mil promessas, “se eu o picar nós dois afundaríamos, não seja tolo!”, e convence o sapo a fazer a travessia. O escorpião sobe nas costas do sapo, e eles entram no rio. No entanto, quase chegando do outro lado, o escorpião crava seu ferrão no sapo; já sob o efeito do veneno, o sapo questiona "por que você me picou? agora nós dois vamos morrer!" E o escorpião responde, antes de afundar, "me desculpe, eu sou um escorpião e essa é a minha natureza."  Eu também gosto muito de...

Ponto ótimo

Quinze minutos atrás um amigo lançou uma pergunta: porque os homens se apaixonam pelo que vêem e as mulheres pelo que ouvem? Era uma pergunta retórica, um desabafo, e deveria ter se encerrado na minha resposta "não sei, nunca parei pra pensar nisso". Só que comecei a pensar. E em mais do que os porquês de nos apaixonarmos; por quê nos apaixonamos tanto? Fico extremamente tentada a usar o Mário Quintana pra (me) justificar, " no entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo: as andorinhas é que mudam ", mas tenho plena consciência de que é um engodo. Difícil enganar a si mesmo, né? Às vezes esse "hábito" de apaixonar constantemente parece uma doença crônica, da qual queremos nos livrar e conseguimos, no máximo e com muito custo, minimizar os sintomas. Não que paixão ou amor sejam aspectos negativos da vida; o problema reside no excesso. Como determinar o "ponto ótimo" de estar apaixonada? Como identificar o limite e saber se estamos ultrapassa...

Aquele não

Não. Eu não posso. Taí o não mais difícil de dizer: o não que deseja ardentemente ser convertido em sim. O não que é um “eu quero, mas não devo!”. O não que nem deveria ser dito, porque pela condução natural da vida não era pra haver uma pergunta a ser respondida. Ou um convite. Dizer não a estranhos é fácil. Dizer não aos próximos às vezes é delicado, tenso, mas plenamente possível, a palavra saí da boca – com naturalidade ou sem, faz pouca diferença. Agora vai dizer não a você mesmo, vai... Dizer não às vontades malucas, às paixões que habitam secretos descaminhos do coração, vai! Sabe quando você está com a garganta inflamada, entupida de antibiótico e dá um pulinho no bar só pra dar um oi aos amigos? Quando aparece aquela santa alma pra pedir um copo, servir a cerveja e te oferecer? Você tem plena consciência de que não pode, que não vai parar no primeiro copo (que sejam só dois; dois é diferente de um, e um é diferente de nenhum), que é errado. E você bebe! Um, dois, n copos. Se r...

Ainda sobre o pudor - e talvez sobre a escrita

Nua, sentada no chão com as pernas abertas, o céu escuro sobre a cabeça, uma vida inteira que não cabe nas mãos e escorre... Sem sexo, sem o peso do sexo. Nua como um anjo. Pernas contra o chão frio; o sincero contato com a dura, firme e gélida realidade do chão. Pernas em seu íntimo desejo de ser chão. Estrelas num céu de inverno, inúmeras. Luzes numa noite de inverno, inúmeras: janela. Culpa, quem precisa? Quanto mais penso, mais cresce essa massa fértil, essa semente germinante que é a vida. Não, o pudor não é necessário; todas as peças de roupa que a culpa nos faz vestir, as inúmeras máscaras, nada disso é necessário! Se tudo desejo, se tudo é desejo e vontade e ânsia e intenção...! E agora o desejo é estar nua: carne, osso, pele, pelos. Retiro peça por peça, com a calma de quem adoça os caminhos com saliva e mel. Jogo no chão frio (o mesmo chão que se confunde com as minhas já despidas pernas) as querências silenciadas, os nãos que nem cheguei a ouvir...

Sobre o pudor e a escrita

Há muitos dias venho sentindo uma grande urgência em escrever, fazer reais as inúmeras imagens formadas na minha mente. Frases, parágrafos, finais... Várias histórias contadas de várias maneiras, muitas, muitas palavras caminhando de um neurônio a outro. E, no entanto, algo travou. Eu não conseguia escrever. Mais palavras, mais ideias, bum!, a luz acendeu. E qual não foi o espanto ao perceber a motivação do bloqueio... Quando escrevo não se trata apenas de exposição: é uma completa nudez. Enquanto dou forma (e palavras) às ideias, vou despindo as situações do cotidiano até restar a sensação, o sentimento. Talvez seja mais até que nudez: é como se, depois de tirar as roupas, eu me sentasse de pernas abertas. Bem abertas. Curiosamente o pudor existe justo quando estou composta; composta de fatos, realidades, nomes, endereços. Isso sim é a real exposição! E anda bem difícil me livrar dessas "assinaturas". Todos os textos pensados são como que feitos para alguém, para dizer algo ...