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Lançando as cinzas n'água

O ser humano tem travas internas tão delicadas que uma inocente massagem pode afrouxar um parafuso e deixar várias peças soltas pelo caminho... Talvez a massagem não tenha sido tão inocente assim, mas nada que justifique esse ninho de mafagafo que se instalou no meu peito. *** Até poucos dias atrás eu estava muito segura. Segura quanto às minhas ações, segura quantos aos meus sentimentos. Por mais que o desenrolar da história dependesse cinqüenta por cento de mim, não havia com o quê preocupar: as minhas certezas bastavam. Eis que a chuva invade o quarto e leva, uma a uma, todas as ilusões que sustentavam a perspectiva de um futuro feliz; sentada e inerte assisti a procissão de coloridas mentirinhas escoando calha abaixo. Tão bonito! O Vinícius cantando as venturas dos amores que não vivi, a água carregando a primeira erva daninha que brotou nessa terra seca... Definitivamente nem um mês de sol a pino vai ser suficiente pra secar o lamaçal de dúvidas e trazer à tona aquelas frágeis e a...

Refratada

Não sei lidar com o tempo. Não gosto de esperar. *** Vivo com urgência, vivo em imediato, vivo o agora. E quando a vida me faz esperar eu desaprendo a viver. Troco os pés pelas mãos, faço o que não posso, falo o que não devo. Me contradigo. Caio em danação. Impedir que a mão chegue ao telefone é fácil; impedir (bons e maus) pensamentos não.

Uivos na madrugada

O homem não é lobo do (outro) homem; o homem é lobo de si mesmo. Não bastando as ilusões a que sou exposta diariamente, minha cabecinha florida não se cansa de criar histórias da carochinha e nelas me inserir ativamente. Ratos, abóboras, tijolos: ninguém fica ileso! Mal os vejo já imagino cavalos, carruagens e castelos... O problema é que, passada a empolgação, ouço as doze badaladas, o encanto se desfaz e tudo volta à humilde condição de ser só o que se é (nem um pouquinho a mais, nem um pouquinho a menos). Quando vou aprender a amar o que de fato existe? Ô eu-lírico burro que só me mete em furada...

Palavras úmidas

Eu não estou aqui. Você não está me vendo. *** Meus inúmeros eus se dissolveram todos na tempestade. Me fragmentei. Sabe-se lá o que será de mim quando o sol sair e as roupas secarem... Hoje vou me reinventar!

Do egoísmo

Juntas ou separadas, as letras no papel insistem em dar sentido ao que sinto. Migalhas de pão não matam a fome. Umas poucas palavras também não. Como escrever o que eu mesma nem sei dizer? Não aprendi a compartilhar o melhor - e o pior - de mim. E na ignorância permanecerei, que os meus silêncios interiores são sublimes e só meus.

Sobre adaptar

Eu não vou me render aos prés e pós conceitos. Não vou me conceituar. Quero o respeito sem cercas, sem muros e sem freios. Ser ilimitado é ser divino. E só Ele sabe o quão triste é olhar para os lados e encontrar tantos filhos de Deus mergulhados na estúpida insistência de ser um simples mortal...