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1° de janeiro

Eu quero um homem que lave meus pés e molhe minha boca. Homem que me faça rasgar as roupas, manchar as paredes e quebrar camas. Homem que me faça pensar na próxima transa, e não no possível primeiro buquê de rosas. Homem que me faça tremer de desejo ao encostar as mãos em minhas costas. Homem que me queira, e por me querer esteja comigo de corpo inteiro - seja por uma noite, uma semana ou uma vida (ok, uma vida é tempo demais. Contento-me, por enquanto, com um dia de cada vez). Eu quero tudo a que tenho direito, incluindo pernas doloridas e sorrisos saudosos do corpo quente e moreno que me terá feito perder a hora, a aula e a atenção. Eu quero o direito de respeitar meus instintos. E um homem que respeite a mulher que eu sou.

De dentro do ônibus

Às vezes incomoda a garoa no fim da tarde. Às vezes incomoda um dente. Às vezes incomoda uma unha no pé. Incomoda, às vezes, todas as pessoas me olhando. Incomoda também a consciência pesada que me faz crer que há pessoas a me observar. O próprio incômodo se faz, às vezes, incômodo. Às vezes não incomoda. Às vezes nada incomoda. O frio, a pressa, o aperto, incomoda em nada. Às vezes a pele me salva. O cheiro me salva. O tato me salva. E nem a crítica incomoda. Às vezes.

E?

Este não é o meu quarto. Esta não é a minha casa. Não são meus a cozinha, o cinzeiro ou o sabonete. Aos poucos vou conhecendo os detalhes, o estar de cada coisa, o olhar oblíquo e a palavra que se esquiva de uma pergunta indelicada. Eu poderia pertencer a este lugar, confundir meu cheiro com dele, e, ainda sim, nada seria meu. Deveria me sentir uma invasora. Há outra dona para este lar. Posso senti-la no vapor que sai da chaleira. Posso vê-la nos lençóis que cobrem as camas. Posso ouvi-la no barulho da rua que chega através das janelas. A esta “uma” pertence tudo o que se respira ou se cala. Deveria me sentir invadida. Entrei por aquela porta sem saber que houvera outra a desfilar odores femininos pelo corredor. Sem saber que música dançar. Sem saber com que mãos ouvir. Entrei sozinha, desarmada, permeável. Deveria nada sentir e ir embora. Ainda não fui. Nada quero possuir. Quero tão somente estar. Poder chegar e partir sem me partir ao meio. Estar aqui e, ao sair, não estar nem mais,...

Baby, bye bye

"Me coloca na cama se eu dormir?" Ele respondeu com um beijo rápido, e aninhei sobre suas pernas. O sofá estava tão aconchegante, o colo dele tão convidativo! Mal conseguia manter meus olhos abertos. Tentei assistir o filme, mas ele começou a mexer em meus cabelos... Acabei dormindo na sala de estar. Acordei cedo, mesmo sendo domingo. Ele dormia profundamente, num respirar lento, tranqüilo, relaxado... Há tempos não o via assim! Ajeitei as cobertas sobre seu corpo e sai da cama. Fui até o banheiro lavar o rosto e, ao olhar no espelho, percebi sem muita certeza tristeza em meu sorriso. A casa estava gelada, há anos não fazia um inverno tão rigoroso. Vesti o moletom vermelho, preparei um chá de maçã e sentei na rede da varanda. O céu estava clareando, não havia movimento na rua, o vento a embaraçar meus cabelos... Me perdi em meio às lembranças da noite anterior. Fora tudo inesperadamente perfeito: o telefonema, a praça, a pizza, o vinho, o sexo, o início do filme. E també...

Quase uma inutilidade pública

Perdão pela ausência de textos... Cansaço, falta de tempo, falta de saúde e falta de computador disponível nas horas vagas.

Leve, bem de leve

Amanhã comprarei um pacote de balas de gelatina, uma garrafa de guaraná, três pacotes de biscoito recheado e uma caixa de bombons. Colocarei tudo dentro da mochila de ursinho, junto dos guardanapos xadrez, do prato de menininha e da caneca de leão. Armada até os dentes de bobagem vou invadir o jardim, abrir uma toalha branca no chão e montar acampamento. O sol não queimará meu rosto, e nem as formigas tentarão me atacar. Vou comer, comer, e quando me fartar de tanto doce deitarei sobre a toalha - meu pé estará limpinho, mamãe não terá motivos para xingar. Será o início da grande batalha. Apoiando a simpática edição de "Contos de Grimm" nos joelhos, explorarei todas as fronteiras da minha imaginação. Um silêncio quase virginal me protegerá dos ataques externos. A campanha será árdua, posto que para recriar um universo perdido na memória será necessário buscar em remotas lembranças as mais sutis cores da infância. A luta terminará tão somente quando ouvir alguém chamar: "A...

Espuma e vinho seco

Helena encheu a taça, diminuiu a intensidade da luz e sentou na cadeira de balanço. No toca-disco, um antigo vinil de tango argentino; o aparelho de cds estava perfeitas condições, mas alguma lembrança antiga -- talvez anterior até ao seu nascimento -- a conduziu ao empoeirado toca-discos. Lentamente a música foi ocupando todos os cantos da casa, todos os cantos de Helena. "Era a Vó Cilica que gostava dessa música, não era?" A lembrança da avó sobreveio como um soco no peito, prensando a garota na cadeira, tão intensa que era quase possível sentir o cheiro do talco que a velhinha gostava em sua própria pele. Saudade. Seria mesmo possível que estava sentindo saudade da avó? Já haviam se passado meses e ela não sentira nada, nenhuma tristeza, nenhum vazio. Agora este aperto no peito, esta vontade de chorar... "Coisa mais sem sentido! Deve ser culpa da música". Evitando pensar demais, Helena desliga o toca-discos, toma um grande gole de vinho e começa a preparar o banh...