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V.1

Divirto-me calada com a sombra de meu sorriso; eis que amor se aproxima novamente. Vem, acompanhando o vento frio que anuncia a chegada do outono neste interior. Na verdade, verdade mesmo, amor não chega de fato. Fica assim, parado, bem pertinho. Perto perto perto. Se eu desejasse, poderia tocá-lo com as mãos! Amor brilha como calda de açúcar recém-saída do fogo: dá gosto de ver, vontade de comer e medo de queimar a língua. Estabanada como sou, capaz de queimar a boca inteira... Não quero ter amor nas mãos. Não quero amor pra mim. Criar amor dá trabalho, precisa de atenção - e meus peixes todos morreram por falta de comida. É, melhor deixar amor onde ele está. Assim pertinho já é muito bom, dá gosto de ver. Assim, de pertinho, sem tocar, amor se contenta com qualquer migalha; serve abraço, sorriso, beijo na testa, até esperança atravessada serve. Enquanto puder, amor ficar assim. Um dia ele decide se toma posse do meu coração torto ou se parte e dá lugar a sentimentos mais...

Pizza meio mulherzinha

A garota que toca piano tem flores na janela, lê Vinícius de Morais, canta Tom Jobim e dança o "Quebra-Nozes" - sem ritmo nem jeito mas dança. E a garota que toca piano às vezes parece nem tocar. Porque ela xinga palavrão, mata barata com chinelo, bebe cerveja e troca lâmpada. Às vezes nem parece mulher. Nesse não-parecer é que se esconde o mundo... Quem vai saber que ela deseja ter três filhos, passear de mão dada pela praia e receber flores? Universo tão, mas tão particular que parece até impossível. Eis que o medo de um futuro sem cor arrebenta no meio da noite; ela rola sobre o lençol azul, aperta o cachorro de pano contra o peito, quase chora, quase mesmo. Ela dorme a angústia. E amanhece inspiração. A fé na vida e em si mesma a acalentou em sonho (daqueles que a gente não lembra quando acorda): deu-lhe novos lápis de colorir o mundo. A garota que toca piano corre, então, até a esquina e trás mais flores para o quarto, estuda Bach até doer os dedos, coloca canela no molh...

Sai do portão e vem brincar

Anda, sô, toca a campainha e corre! Não posso. Não mais. Eu quero tocar a campainha e esperar. Se for moça dar bom dia, se for velha pedir um copo d'água, se for cachorro tropeçar nos pés e cair na calçada. Eu quero tocar a campainha e esperar. Cansei de dar as costas à vida e entrar debaixo da saia da minha mãe. Eu quero o esporro, o sorriso e o desprezo.