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Passeando por aí

Completude. Cheiro de maresia distante, gatos dormindo em cima da mesa, a bandinha crente machucando a bateria no terreno ao lado, tv desligada, a caixa de som tocando bom pop. A cena é esta, dentro e fora de mim. Sentimento de "tudo em seu devido lugar". Juro que pensei que o sintoma máximo de tal estado seria um calor invadindo o coração, a alma emanando paz e todos os etcs e tais possíveis. Meus botões e zíperes que o digam... Estranhamente, neste exato instante eu afirmo -- com uma certeza quase messiânica: estou completa. E nada da tal calidez cardíaca! A noite sugere apenas que a louça suja dentro da pia nunca pareceu tão apropriada. E os papéis espalhados, e a pele melada de suor e sal, e a casa vazia, vazia. E a certeza quase messiânica de que tudo está em seu devido lugar. Deve ser a tal da felicidade...

Do além

Estava eu sentadinha num centro espírita, banco comprido, aguardando minha vez de receber o passe. Eis que vem um médium e diz, durante a palestra que ministrava: "A ilusão é o primeiro dos prazeres." E penso eu com minhas pulgas, "fudeu". Passado o pânico, voltei a rezar. Com um empenho que você nem imagina...

Pouco antes de dormir

Obrigado, papai do céu, por mais um dia. Me proteja pela noite que aí vem, assim seja. Pernilongo maldito, outro, e mais outro, impossível dormir aqui Deus meu! Pai nosso que estais no céu, santificado seja vosso nome... Que criatura mais tola, parece até que adivinho e nem é intuição, é conhecimento de causa mesmo, ela não muda e vem sempre com a mesma ladainha, o pior é que sou eu quem escuta no final, a besta aqui, a chorona do outro lado, azar se eu tenho de trabalhar ou cortar as unhas dos pés, mas pare de pensar mal dos outros que você não é nenhuma santa. ...Perdoai nossas ofensas, assim como perdoamos a quem nos tem ofendido... Será que fui realmente estúpida com ele?, não sei, na hora estava tão cansada e ele mexendo no teclado, me incomodando, talvez tenha gritado com um pouco mais de vontade do que o necessário. ...Livrai-nos de todos os males que ainda somos portadores. Amém. Será? Quando ele me deixou na porta de casa estava com uma cara estranha, calado, pode ser cisma m...

Mais uma barata

Eu na sala, a barata no banheiro. A Clarice escreveu sobre baratas, o Otávio escreveu sobre mim e as baratas. Mas e se eu não quiser matar a barata? Por pura e simples não-querência? Estaria perdendo a virilidade feminina? Eu mato baratas, sempre mato baratas. E talvez tenha me cansado delas. Me cansado do barulho de carapaça quebrando, da gosma que parece vícera (e não é; aquilo são ovos de barata), da mancha que fica no piso de taco, de varrer o bicho pra fora de casa. Me cansado, sobretudo, de saber que a porra da barata não morreu. Que os ovos vão eclodir. Que vão sempre existir baratas, independente do número de chinelos que existam no mundo. E no entanto a barata está lá. Porquinha. Passeando pelo banheiro. Subindo na pia. Pisando no sabonete. Nadando na água do vaso sanitário. Eu poderia levantar e matar com uma pisadinha. Esforço zero. Poderia mesmo. Minha missão neste mundo pode até ser matar baratas sem dar chilique. Mas desta vez eu vou gritar. E se alguém reclamar, subo no ...

V...C

Diante de mim surge o caminho da água. O caminho do fogo. O caminho do meio. Em mente sigo pelo centro, equilibrada. Em fato provavelmente queimarei as fuças...

V.2

Você bem podia ter um fusca. Aí eu chegava cedo em casa, pão quente na mão e você lá, passando café. Você bem podia ter um fusca. Aí às vezes eu nem saia de casa. Passava a noite falando, falando, e de manhã a gente comeria pão velho na chapa. Ah... Se você tivesse um fusca, viria correndo pra cá. E eu nunca mais teria de chorar escondido de mim mesma. A vida não era menos dura. Mas era mais fácil viver. Eita cordão umbilical difícil de cortar! Você bem podia ter um fusca. Já que não pode, pega logo um ônibus e corre, corre muito...